(Créditos: TV Globo)
Dentre os diversos núcleos contemplados em Garota do momento, um de bastante destaque desde o início da trama é o das três melhores amigas Bia (Maísa), Celeste (Débora Ozório) e Eugênia (Klara Castanho). Quem acompanhou a novela desde o início pode até não ter parado para reparar, mas, sem dúvidas, consegue reconhecer o quanto o trio de adolescentes foi modificado e transformado ao longo da história. É inevitável, nessa fase da vida, enfrentar mudanças, inseguranças, dificuldades nas relações e agir de forma precipitada, incorreta ou irrefletida, afinal, além das pressões sociais (ainda mais significativas em 1958, época em que se passa a novela), os jovens passam por situações como essas sem terem completado o desenvolvimento pleno do córtex pré-frontal, o que se relaciona com a imaturidade social e emocional. Ao se considerar isso, percebe-se que as histórias dessas três garotas de grande relevância na novela foram elaboradas e desenvolvidas de forma bastante sutil e sensível (claro, com determinadas liberdades criativas, algumas das quais comentarei ainda), por explorarem com delicadeza determinados dramas atemporais da juventude feminina e revelarem, nos arcos de desenvolvimento (o foco desse post) personagens bastante complexas, dignas do tamanho espaço que ocupam na narrativa.
Fofocas, vestidos, concursos de miss, colunas femininas em revistas, milk-shakes, tardes jogando boliche. O clima inicialmente descontraído que era a marca desse trio de amigas já não é mais o mesmo, pelo menos não da mesmo forma inocente e ingênua como era retratado. O cenário do chamado Bowling Rock deixou de ser apenas um lugar de descontração, conversas inofensivas e primeiros beijos, mas tornou-se um espaço de momentos bastante delicados para as três meninas. As anteriores peças pregadas, risadas em conjunto, campeonatos divertidos e todo o clima de juventude norte-americana foram deixados de lado, afinal, crescer é preciso, e Bia, Celeste e Eugênia sentiram isso na pele. O boliche representa, metonimicamente, o amadurecer dessas três personagens: Bia tendo que encarar de frente e assumir as rédeas do seus graves erros (não mais apenas pequenas brincadeiras ou chacotas), Celeste lidando com as consequências de viver um amor primeiramente leve e romântico, mas depois desenfreado e precipitado, e Eugênia curando-se de frustrações amorosas e familiares e abrindo-se ao novo amor mesmo com suas inseguranças. As transformações são muitas e graduais, mas andam em conjunto com a narrativa e com os outros personagens. Se antes tínhamos brecha para achar que esse trio seria apenas um símbolo da juventude pré década de 1960, agora temos a certeza de que as questões exploradas pela autora da novela (Alessandra Poggi) nos fizeram perceber que agora elas são adultas e, nesse papel, inevitavelmente, precisam (aprender a) lidar com as circunstâncias nas quais estão inseridas (algumas por ações próprias, outras por ações externas) de outra forma. Afinal, nem tudo se resolve com um milk-shake de morango e com um strike, infelizmente.

(Créditos: TV Globo)
Isabel Batista Alencar, mais conhecida como Beatriz Alencar (agora também Sobral) desde o início da exibição da novela é tida (por justa causa) como uma menina mimada e egoísta, daquelas que não aceitam quando algo não acontece do jeito que desejam e, por isso, passam por cima de quem for preciso e da forma que for preciso para que seus desejos e caprichos se concretizem. A conjuntura de sua vida é propícia para isso, já que vivia a tal da “vida perfeita”: rica, herdeira de uma empresa de grande faturamento (a Perfumaria carioca), com uma família que a ama e sempre atende a seus pedidos, pais casados e felizes, mansão com piscina, vestidos e joias, melhores amigas e um namorado lindo. Bia poderia muito bem ser considerada uma it girl, se o termo já existisse na época. O único entrave de sua vida era lidar com uma comunicação interatrial, que fazia com que ela tivesse de ser poupada de fortes emoções ou desgostos. Conhecendo o jeito da menina, não é difícil perceber que tal condição era desculpa para tudo, ou melhor, para que tivesse tudo da maneira que quisesse. As coisas começam a desandar muito vagarosamente em sua vida quando o namoro dos sonhos vira pesadelo: Beto (Pedro Novaes) se apaixona por outra mulher, que, para piorar, tem o mesmo nome de Bia, mas personalidade completamente diferente (Beatriz - Duda Santos). Não entrarei em detalhes sobre a relação do casal de protagonistas. O que cabe citar é que, diante de tamanho desgosto, Bia não hesita em desrespeitar e tentar sabotar a vida e a carreira de Beatriz, que também despertava a afeição de Clarice (Carol Castro). Ao realizar suas armações, Bia se aproxima de Ronaldo (João Vitor Silva), irmão de Beto que sempre foi apaixonado por ela e, diga-se de passagem, merecia um post próprio. Quando, enfim, parecia que a relação dos dois, tão apreciada pelo público, começava a caminhar para algum lugar, a trama de Bia desandou. Sentindo-se ameaçada após as acusações de Beatriz contra a família Alencar e as alegações de que Clarice é sua mãe biológica, Bia retorna à estaca zero de ser arco de desenvolvimento: ressurge o ódio colossal pela protagonista. Como se não bastasse, após ser salva por Beto de um afogamento na praia, seu amor por ele parece reacender subitamente. Agora, porém, as novas armações atingem a ilegalidade. Onde foi parar a aproximação com Ronaldo? É compreensível a dificuldade de acreditar no fato de que seus parentes têm péssima índole e de aceitar dividir o amor de sua mãe com outra pessoa, principalmente sua “inimiga”, mas Bia desconhece limites. Creio que a intenção da autora era essa, porém não dá para negar que às vezes parece que algo passou do ponto. As maldades de Bia foram inúmeras e muito diversas desde o início da trama. O principal problema que eu vejo em tudo isso é a demora para a sua redenção, que só começa a dar sinais de início no período final da novela. É possível perdoar alguém com atitudes perversas como as de Bia tão rápido assim? Mesmo com as passagens de tempo finais da novela, não seria interessante que pudéssemos ver sua mudança mais profundamente e que ela tivesse um arco de redenção mais longo e reflexivo aos olhos do público? Depois de poucas verdades jogadas em sua cara (que antes “não podiam ser ditas” por causa do problema cardíaco), Bia já se arrependeu, mas não por consciência própria, mas por, mais uma vez, perceber que não poderia ter o que queria (agora Ronaldo) se continuasse mentindo. Bia tornou-se um exemplo do conceito kantiano de imperativo hipotético, pois quando age da forma correta, não o faz simplesmente porque ela é correta, mas sim porque visa o resultado particular de sua ação.
Tudo isso que foi comentado torna, ao meu ver, o arco da personagem ruim? Não. Talvez quem não tenha o hábito de assistir novelas e esteja acostumado apenas com o ritmo frenético das séries ache o processo de amadurecimento de Bia muito arrastado, e é, de fato, mas não podemos esquecer que ela é uma projeção de uma vilã de novela. É claro que a extensão de uma obra como essa torna tudo um pouco mais demorado e cansativo, mas teria como ser diferente? E se fosse diferente, como caminharia a novela? Com a reconciliação dos protagonistas bem antes do fim? Claro que não! A lógica não é essa e quem gosta de novela sabe disso. O que eu quero dizer com isso é que todo esse arco desgastante de Bia não é particular de Garota do momento, é a estruturação do folhetim. Acho que o que agrava essa sensação de falta de sentido é o fato de que, por ser uma jovem vilã, Bia é inexperiente, imatura e manhosa ao extremo, ou seja, além de cometer falhas ridículas em suas armações, é movida por futilidades e não sabe (e sequer se esforça para tentar) aceitar a realidade. No entanto, todo o processo de redenção poderia ter sido explorado e desenvolvido com mais calma durante a trama, pois fez falta. Logo, o que quero reforçar é que o desenrolar dos acontecimentos tornou a história de Bia cansativa e pouco convincente. O arrependimento, além de pouco fidedigno, foi repentino, coisa de duas semanas após a cirurgia que precisou fazer no coração. Faltou miolo, substância, algo que já preparasse esse arco desde antes da cirurgia e que não ficasse restrito ao amor irrefletido por Beto. Ainda assim, vê-se que, em geral, a história dela caminha com sentido, embora com falhas: Bia começa a crescer, ainda que só no fim da trama. A adolescente mimada e inconsequente aparenta dar sinais de um pequeno amadurecimento, apesar de ter precisado de empurrões para isso. São muitas conjunções concessivas que caberiam aqui, o que confere mais peso e relevância às partes boas disso tudo. O saldo é positivo, mas o lucro não é tão grande, mas, sem dúvidas, há um amadurecimento perceptível, embora tardio. O que fica e o que quero destacar é o arco de “desconstrução” da personagem, que também é perceptível em Celeste e Eugênia. Bia desconstruiu sua visão de mundo limitada, mas, mais do que isso, teve de desconstruir a si própria para ingressar na vida adulta: não é fácil, de fato, assumir para si própria verdades que lhe foram escondidas a vida inteira, sobretudo quando se trata de família, e acho que esse foi o principal ponto de amadurecimento de Bia. Não apenas o abalo que Beatriz causou em sua vida, mas também se desfazer de sua própria identidade e de sua (falta de) personalidade (unicamente centrada em Beto, diga-se de passagem) foi o que tornou imprescindível que Bia, de uma vez por todas, assumisse sua maturidade e, com isso, as consequências de seus atos infantis.
(Créditos: TV Globo)
“Essa carta é pra você, que se considera um homem forte, de coração corajoso, que não fecha os olhos diante de aproveitadores, que sonha conquistar o mundo com as armas do amor e da persuasão. Aqui, você encontrará uma amiga doce e compreensiva, que não se aborrece diante de cartas de amor que terminam de modo patético.”
Movida pelo amor romântico dos grandes casais apaixonados da literatura, Celeste Sobral escreve uma carta para o jornal à procura de um amor tão lindo quanto os que lê a respeito. Apesar das armações de seu irmão e de Mauro (João Vithor Oliveira) para que ela se envolva com o publicitário abusivo, o amor de Celeste e Edu (Caio Manhente) triunfa e o romantismo idealizado preenche a relação dos dois. A história deles, porém, não acaba assim. Celeste precisava entender que o “felizes para sempre” não é o final verdadeiro das histórias de amor e que a felicidade não é o destino, e sim o caminho, que é repleto de percalços. A desconstrução e o amadurecimento da caçula Sobral se dá, em parte, pelo rompimento da ideia romântica e idealizada de amor.
Celeste enfrenta brigas com seu pai, Raimundo (Danton Mello), para poder levar adiante sua relação com Edu e, quando preciso, segue namorando com ele escondida: o clássico clichê do pai “cabeça fechada” que não se satisfaz plenamente com o envolvimento da filha com um jovem sonhador de classe média e proíbe o relacionamento dos dois devido, nesse caso, às atitudes criminosas do pai do rapaz. Acontece que, apesar de serem ainda jovens ingênuos e sem condições de sustentarem-se sozinhos, Celeste e Edu sentem-se adultos o suficiente para “avançar o sinal”, mas não para lidar com as consequências disso. Uma gravidez na adolescência obriga Celeste a crescer. A vida pautada em sonhos apaixonados precisa se voltar à realidade cruel e esmagadora. Celeste amadurece na marra, pois, com a gravidez, precisa, primeiramente, enfrentar a fúria de Raimundo diante de suas atitudes e, posteriormente, lidar com toda a pressão e com todas as responsabilidades que precisa assumir precocemente por ser uma jovem mãe. Acho que isso é o mais importante: ela e Edu precisavam aprender que, por mais belo que seja o amor, a realidade de suas consequências está longe de ser romântica. E assim, Celeste não teve outra escolha a não ser deixar de lado a ingenuidade juvenil para encarar de frente os desafios da vida adulta que apareceram em sua frente.
Contudo, todo esse processo de crescimento da jovem não se restringe a Edu e à maternidade. Um ponto crucial do arco de desenvolvimento da personagem e também dos personagens Ronaldo, Beto e Raimundo é a relação com Lígia (Palomma Duarte). Inicialmente restrita e incapaz de superar a percepção que Raimundo nutria e passava para os filhos sobre a cantora, Celeste pôde expandir seus pensamentos ao aproximar-se da mãe para poder se relacionar com Edu, assim conseguindo, aos poucos, enxergar toda essa situação com outros olhos, passando por cima da visão limitada alimentada pelo pai. Toda essa mudança revela muito sobre o amadurecer da jovem, pois explicita (até pelo fato de ela ter sido a primeira da família Sobral a se dar bem com a mãe) sua independência intelectual e emocional aflorada no momento em que ela consegue entender, por si própria e sem qualquer influência de seu pai e irmãos, a perspectiva de Lígia, até então sufocada por Raimundo.
Toda a trajetória de Celeste durante a trama carrega um processo muito rico de amadurecimento, tanto prático quanto emocional. De maneira muito bem construída, a personagem, conforme se desprende de seu lugar tradicional de “moça de família”, torna-se uma mulher capaz de enxergar a realidade de forma menos idealizada e de entender e expressar melhor seus próprios sentimentos. Nesse sentido, entendo a história dela como uma das mais completas da novela, justamente por explorar relações tão complexas (sobretudo com sua família, mas até mesmo com suas amigas) e uma mudança crucial na vida de muitas jovens. Celeste, claro, é favorecida por pertencer a uma classe social que lhe confere melhores condições financeiras, mas o que quero destacar é a nítida diferença entre a sonhadora ingênua do início da trama e a sonhadora realista e ainda doce do final da trama, porque, afinal, crescer não significa deixar de sonhar, mas sim, entender que os sonhos são construídos a partir de uma realidade árdua (vide Lígia). E Celeste entendeu isso!

(Créditos: TV Globo)
Eugênia também queria viver um amor, especialmente porque sentia-se insegura com sua aparência devido, sobretudo, ao fato de ter cicatrizes de uma queimadura no braço. Ser amada e admirada é algo que, para ela, tem um peso ainda maior, pois envolve sua autoestima. Abalava-se facilmente com as provocações ridículas de Topete (Gabriel Milane), que fomentavam sua crença de que nunca seria verdadeiramente amada por um homem, já que acreditava não ser bonita o suficiente para isso. Nesse contexto, enxergava Guto (Pedro Goifman) como o rapaz perfeito: carinhoso, divertido e parecia não se importar com a queimadura. Bom demais para ser verdade! Eugênia teve de lidar com frustrações: ser rejeitada por Guto quando ele reconheceu-se como homossexual, ver sua mãe, Teresa (Maria Eduarda de Carvalho), cada vez mais mergulhada em seus traumas por causa do incêndio que causou as cicatrizes na menina e, ainda por cima, aceitar a separação de seus pais em prol da felicidade de Alfredo (Eduardo Sterblitch) com Anita (Maria Flor), mãe de Guto. Diferentemente de Bia, Eugênia passou por tudo isso de forma muito mais doce e madura, características que fazem parte de seu temperamento.
Diante de tudo isso, Eugênia se aproxima de Topete, antes pelos seus beijos e só depois pelo surgimento de uma paixão possibilitada pela mudança de comportamento e pensamento do jovem. No início da relação dos dois, víamos algo natural surgindo aos poucos entre eles. Os erros de Topete, as descobertas de Eugênia e todo o cenário de “armação” por trás desse romance davam um ar de Malhação muito conveniente e adequado para uma novela das 18h. Acontece, porém, que mais para o final da trama, o envolvimento e até mesmo a reconciliação deles não foi desenvolvida com o destaque que, ao meu ver, merecia. Bia e Celeste tiveram seus finais construídos com mais detalhes e profundidade, mas parece que a trama de Eugênia, tanto sua relação com Topete quanto a aceitação de sua queimadura, foi deixada de lado em prol de esquetes de núcleos secundários ou mesmo de alguns momentos apelativos do núcleo principal. Tive a impressão de que repentinamente ela passou a lidar bem com a marca que o fogo deixou em sua pele, mas como isso afeta (no sentido de “faz parte de”) sua relação com Topete e consigo mesma? Por estar se relacionando com alguém que sempre se mostrou incompreensível diante das cicatrizes, ela não se sente insegura? Infelizmente essas questões foram deixadas de lado. Uma pena, porque isso certamente enriqueceria o arco de desenvolvimento de uma personagem tão bem quista.
Acho que Eugênia foi, dentre as três meninas, a que menos teve de lidar diretamente com grandes responsabilidades. Talvez por sempre ter sido a mais cautelosa, a realidade mostrou-se para ela de forma mais amena e mais relacionada ao seu aprendizado individual. Ainda assim, podemos perceber que ela amadureceu: a dor da rejeição associada à sua sensação equivocada de inferioridade estética, a ruptura do elo familiar tradicional e ainda mesmo as mudanças vividas por suas amigas foram questões que a levaram a uma maior maturidade emocional, que, ao meu ver, poderia ter sido mais explorada na novela.
“When I dreamed of you / And of falling in love / Gazing at the stars / In the heavens above / Something inside me / Said that you'd find me / Every night I would pray / And I hoped that love would find the way”
(Trecho da música Love has found the way, de Dan Torres)
No caso de Bia, Celeste e Eugênia, o amor encontrou o caminho, mas mais do que isso, elas conseguiram continuar caminhando mesmo com as adversidades que enfrentaram e conseguiram, também, aprender muito durante a caminhada. É nítido que as três adolescentes já foram colocadas no caminho para a vida adulta, sobretudo pela necessidade de assumir responsabilidades, reconhecer suas próprias características, defeitos, erros e, com isso, agir para reparar ou compensar suas atitudes. Elas aprenderam, ao longo da trama, a entender, ainda que aos poucos, seus sentimentos e a lidar com diversas relações e pessoas, com as quais antes não conseguiam. Amadureceram na prática, mas não sem o auxílio indireto de pessoas de sua afeição ou não. E assim cresceram! Ao observar as personagens no final da novela, é possível reconhecer que elas, claramente, não são mais as mesmas: é como se a lente de encantamento com a realidade tivesse sido, enfim, removida, de modo que elas passaram a enxergar a vida sob a ótica das responsabilidades, obrigações e verdades muitas vezes cruéis. E isso faz parte do processo de crescer, ainda que doa. Sem dúvidas, Bia, Celeste e Eugênia assumiram arcos de desenvolvimento muito importantes para a trama e nos fizeram amar, odiar, compadecer, sofrer, torcer e admirar. Com importância significativa para a história, as três nos cativaram de diversas formas e seguem, agora em nossa imaginação, amadurecendo e aprendendo ainda mais com as dificuldades e conquistas da vida!
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